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Equipe da TIJUPÁ

5 de jun de 2012

Pesquisa científica comprova superioridade das sementes crioulas

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POR UM BRASIL ECOLÓGICO,
LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS
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Aconteceu nesta semana, no município de Lagoa Seca, na Paraíba, o Seminário “Pesquisa e Política de Sementes no Semiárido”. A grande novidade desse encontro, que reuniu pesquisadores de diversas instituições, agricultores, representantes de movimentos sociais e ONGs, professores, estudantes e representantes de órgãos governamentais, foi a apresentação de resultados de pesquisa científica a respeito da qualidade das sementes crioulas, carinhosamente chamadas no estado de “sementes da paixão”.

Num projeto de pesquisa conduzido em parceria pela Embrapa Tabuleiros Costeiros e a Rede de Sementes da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA-PB), com o apoio da UFPB (Campus Bananeiras) e o financiamento do CNPq, foram realizados, ao longo de três anos, diversos ensaios de competição entre três variedades de sementes “melhoradas” e outras cerca de 20 variedades de sementes crioulas escolhidas pelos agricultores.


Nos anos 2009 e 2010 fizeram parte dos experimentos a variedade da Embrapa chamada “catingueiro” que, por ter ciclo curto, que se completa durante o curto período de chuvas, é indicada para o plantio na região semiárida e era então a única variedade de milho distribuída aos agricultores do Nordeste pelo Programa Nacional de Sementes para a Agricultura Familiar, conduzido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) em parceria com a Embrapa; e também a variedade “AG1051”, da empresa Agroceres (que pertence à Monsanto), que é bastante plantada na Paraíba para ser comercializada para consumo humano direto como milho verde (especialmente na época das festas de São João). No ano 2011 o programa do MDA passou a distribuir também a variedade “sertanejo”, da Embrapa, que foi então também incluída nos ensaios.

Os campos para os testes foram implantados em comunidades localizadas na região da Borborema, que está na zona de transição entre a mata atlântica e a caatinga, e na região do Cariri, em plena caatinga e clima semiárido acentuado.
Os plantios foram conduzidos em manejo agroecológico e tiveram a participação dos agricultores em todas as etapas, desde a semeadura até a avaliação dos resultados. Durante os experimentos, as sementes foram marcadas por códigos, de modo que os agricultores não podiam identificá-las.

Resultados mostraram melhor desempenho das variedades crioulas em todos os campos de teste


O ano de 2009 foi um ano de precipitação média para os padrões da região. O ano de 2010 foi um ano de pouca chuva, e o ano de 2011 teve chuvas bem acima da média – um ano bastante atípico. Nos anos 2009 e 2010, ou seja, o ano de chuva regular e o ano seco, as variedades melhoradas tiveram desempenho muito abaixo das variedades crioulas. No ano 2011, aquele atípico de muita chuva, a variedade AG1051 teve bom desempenho, ultrapassando algumas variedades crioulas (e ficando pouco abaixo de outras).

Esses dados mostram, claramente, a superioridade das sementes crioulas em relação às sementes melhoradas em centros de pesquisa nas condições de solo, clima e manejo da agricultura familiar do semiárido paraibano. As sementes melhoradas podem produzir bem, desde que recebam água e fertilizantes – o que não faz parte da realidade nessa região. Como se vê, não é em vão o cuidado (e a paixão) com que esses agricultores cultivam, melhoram e conservam suas sementes. 
  
Essa constatação, agora validada com todo o rigor que a ciência exige, apenas confirma o que os agricultores sempre souberam e defenderam: suas sementes locais é que são adaptadas às suas regiões e condições de manejo – afinal, estão há décadas sendo permanentemente adaptadas – e qualquer estratégia de promoção da agricultura familiar que não leve isso em conta estará, no mínimo, desperdiçando o melhor material genético disponível.

Historicamente, o campo acadêmico-científico e os gestores públicos afirmaram que as sementes crioulas não eram sementes, e sim “grãos”, negando sua qualidade e viabilidade e assim justificando as estratégias de utilização de sementes melhoradas em todos os seus programas. Diante dos resultados das pesquisas com a Embrapa, os agricultores presentes ao seminário de Lagoa Seca foram enfáticos ao afirmar: “nunca mais aceitaremos que nossas sementes sejam chamadas de grãos”.

Vale ainda observar que, para os agricultores, não é somente a produtividade que importa em uma lavoura de milho. A palha é importante para a alimentação dos animais, a planta alta e de colmo grosso serve de sustentação para a fava que ali cresce em consórcio, os grãos pequenos são preferidos para a alimentação das aves do quintal, o sabugo fino é preferido por muitas mulheres por ser mais fácil de ralar e preparar alimentos, bem como preferências por sabor variam de família para família, comunidade para comunidade. Ou seja, o enorme leque de opções que representa a agrobiodiversidade manejada e conservada pelos agricultores familiares permite uma série de usos e o atendimento de uma diversidade de demandas que não podem ser supridas por uma única variedade – por mais que ela seja eficiente na produção de grãos. A verdade é que a distribuição massiva de uma única variedade gera erosão genética e leva à perda dessa riqueza presente nas comunidades rurais.

Nos experimentos realizados em parceria com a Embrapa, essa perspectiva foi considerada e foram analisados diversos critérios na comparação entre as variedades de milho: produtividade; espessura da planta; quantidade de palha; cor, peso e tamanho da semente; resistência a pragas; resistência à seca, entre outros. Como já dito, as sementes crioulas locais proporcionaram sempre os melhores resultados.

Qualidade reconhecida por políticas públicas 

Um exemplo de política pública que tem valorizado a agrobiodiversidade manejada pelos agricultores e as suas estratégias coletivas de gestão e conservação dos recursos genéticos, como os bancos de sementes comunitários (BSCs), é o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), gerido pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento / MAPA). Desde 2006 o PAA tem realizado ações de compra de sementes crioulas dos agricultores familiares e doação simultânea das sementes para os BSCs da mesma região – tanto para distribuição, como para formação de estoque em anos de crise. Está aí uma política que de fato fortalece a construção de autonomia dos agricultores.

Esperamos que os novos resultados científicos obtidos por uma instituição de tamanho prestígio possam orientar mudanças profundas não só no Programa Nacional de Sementes, como em todas as políticas públicas destinadas ao fortalecimento da agricultura familiar no Brasil.

Ainda neste número
1. Ministério da Agricultura prende produtos da agricultura camponesa mas não impede a venda de transgênicos e leite com soda cáustica
2. Justiça da Argentina rejeita recurso da Bunge
3. Agrotóxicos, interesses e anti-jornalismo
4. Código Florestal: o discurso vazio dos ruralistas

O Boletim é produzido pela AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia (http://aspta.org.br/)
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Um comentário:

Arilson de Jesus disse...

beleza, muito bom ver pesquisas em prol do resgate das tradiçoes populares