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18 de set de 2013

CLOVES ALVES DE SOUSA: UM ÍCONE NA LUTA PELA REFORMA AGRÁRIA E JUSTIÇA SOCIAL EM SANTA RITA/MA



Escrito por Vitamar da Silva Araújo e colaboração da Equipe da Tijupá

Cloves Alves de Sousa iniciou a sua luta nas comunidades rurais dos municípios de Presidente Juscelino, Itapecuru-Mirim, Morros e Presidente Vargas, onde foi professor do MOBRAL na comunidade Estivas dos Cotós na década 70. Desde sua juventude sempre viveu e trabalhou na área rural defendendo os direitos dos trabalhadores (as) rurais, por políticas públicas para garantir a sua permanência no campo, entre outros. 

Na mesma década ingressou nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e ajudou a fundar a Animação dos Cristãos no Meio Rural (ACR), nos municípios de Rosário, Presidente Juscelino, Presidente Vargas, Morros, Cachoeira Grande (comunidades de Cajueiro, Pedras, Alto de Pedras, Pouseira, Jussaral dos Pretos, Santo Antonio dos Cearenses, Itaipú e colaborando em Tingidor, Santo Antonio dos Mendes), tendo atuado ativamente nas equipes de base da ACR assim como participado de instâncias de coordenação estadual e nas assembléias nacionais da organização em Olinda/PE. 


Atuou tambem nas campanhas da “Direta Já”, nas campanhas eleitorais do ex-presidente Lula, nas lutas por justiça social no campo e na cidade. No Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (MSTTR) passou por vários mandatos na direção do STTR de Santa Rita (sendo presidente, tesoureiro e secretario) e foi o sindicalista mais atuante na questão agrária na historia deste sindicato fazendo com que, em meados da década de 80, este STTR fosse considerado e reconhecido -Brasil afora - como o mais combativo do Maranhão. Na inédita luta “de frente” contra o latifúndio na região, contou com o apoio de organizações ligadas à luta no campo como a CPT, Caritas Brasileira, Sociedade Maranhense dos Direitos Humanos, FETAEMA e Igreja Católica (Arquidiocese de São Luis. Paróquias locais, etc.), além de figuras públicas relevantes como Frei Godofredo, José Ribamar Heluy e sua esposa Helena Barros Heluy.  


Cloves Alves vivenciou os conflitos agrários mais acirrados, perigosos” e emblemáticos da historia de Santa Rita, entre eles: a luta para libertar os campos naturais - retirando os Búfalos de grandes fazendeiros como Wady Sauaia; a conquista da Gleba São Benedito, na comunidade Padre Josimo; e a luta contra a empresa Ypioca que redundou na criação do assentamento Novo Tempo. Atuou ainda na luta pela terra junto aos trabalhadores (as) rurais de Alto de Pedras, Jiquiri, Sítio do Meio, Porto Alegre, João Mendes e Santa Filomena (hoje Morada Nova). Em todas as áreas de assentamento de reforma agrária em Santa Rita ele deixou a marca de sua luta e de sua fome e sede de justiça social, principalmente no PA Sefans/Carema no qual era assentado.


Por defender de forma corajosa a causa dos trabalhadores (as) rurais, foi ameaçado de morte, sofreu perseguição política, numa determinada situação enfrentou a policia na delegacia em Santa Rita na qual o delegado queria prender trabalhadores de Jiquiri e São Raimundo. Muitas vezes saia de casa em jejum e sem deixar comida pra família, para ir acompanhar e encorajar os trabalhadores nas áreas de conflitos onde estavam ameaçados de morte ou de despejo, sem o mínimo de segurança, por que a policia e o Governo do Estado ao invés de garantir segurança aos trabalhadores (as), dava suporte aos latifundiários e seus pistoleiros.

Na mesma década ajudou fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) de Santa Rita e foi candidato a prefeito do município em 1991 - sendo ele mesmo compositor de suas musicas de campanha, que ficaram célebres por serem cantadas entusiasmadamente em seus comícios – e mesmo sem recursos, apoio econômico e repulsa dos poderosos do município, ficou em segundo lugar entre os três concorrentes. Foi candidato a deputado estadual e a vereador por quatro vezes sendo eleito em uma e assumido o cargo de vereador em janeiro de 1997 junto com Padre Osvaldo Marinho Fernandes, também do PT, eleito como prefeito. Neste pleito, acompanhou e sofreu junto com Pe. Osvaldo, num processo arbitrário de cassação por que os seu jeito de Governar e Legislar não satisfaziam os interesses e práticas viciadas do sistema político de Santa Rita, existentes até hoje. 


Como vereador do povo e pelo seu jeito popular de defender o interesse dos mais pobres e excluídos e também de bater contra o nepotismo e o clientelismo político, teve algumas vezes sua palavra cassada na tribuna. Recebia seu salário atrasado e a maioria das vezes menor que de seus nobres colegas de parlamento, tendo sido ainda ameaçado de cassação de seu mandato. Cloves foi também, assessor parlamentar do deputado Domingos Dutra do PT. Tanto nas eleições sindicais como na política partidária, Cloves quando candidato, não tinha carros e nem dinheiro, fazia suas campanhas com o povo das comunidades que o acompanhavam de bicicleta e, na maioria das vezes, a pé. 


Como membro da Associação Agroecologia Tijupá, Cloves, além de um associado muito presente, foi presidente da entidade entre 2002 e 2005 e, juntamente com Valdemar Gonçalves de Presidente Juscelino, e outros agricultores/as trouxeram toda sua experiência de luta para a Tijupá, colaborando de maneira decisiva com a entidade na construção dos caminhos que trilha nos dias de hoje. 


Era um homem simples, sonhador e com uma coragem e disposição extraordinária. Como sindicalista e vereador não quis se aproveitar disso para acumular cargos nem juntar patrimônio, não se curvou diante da tentação nem das artimanhas viciosas do sistema político, morreu no exercício de sua luta estando afastado do cargo de Secretário de Política Agrária, Agrícola e Meio Ambiente do STTR por problemas de saúde, mas o seu desejo era poder fazer parte de uma chapa e concorrer às eleições sindicais outubro de 2013.


Foi homenageado em seção solene na Câmara de Vereadores de Santa Rita na qual aconteceram discursos fortes e emocionados proferidos pelos seus companheiros sindicalistas e partidários. Na Câmara de Vereadores, hoje comandada por alguns de seus “nobres colegas” e adversários políticos da época, Cloves teve o reconhecimento que não teve enquanto estava vivo. Vereadores e o atual prefeito - que na época também era vereador - em discurso, comprometeram-se de homenagear o companheiro Cloves colocando seu nome na galeria onde ficam os populares que assistem as seções e com seu nome em obras publicas na zona rural do município. Deixa esposa, filho e netos, e para os que ficam deixa um legado exemplar, um testemunho de vida, coragem, fé, amor e respeito pelos trabalhadores (as) rurais. 


Quanto aos amigos e companheiros do MSTTR, ACR, CEBs, etc. cabem fazer também a melhor de todas as homenagens que é dar continuidade a sua luta por um sistema político ético, justo, transparente, e por um sindicalismo comprometido com as causas dos trabalhadores (as) rurais sem atrelamento político, sem “peleguismo”, sem acúmulos de cargos e sem concentrações de poder, para que se faça valer todo o esforço do companheiro, amigo, sindicalista e político do povo. 


Uma coisa é certa: se não por acaso não existir reforma agrária onde Cloves foi descansar, podem ter certeza... quando a gente chegar por lá ela já terá acontecido!

Valeu Cloves Alves de Sousa!   

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