Bem vindo ao Cá Prá Nós!

É com prazer que apresentamos o Cá Prá Nós, uma iniciativa de divulgação das ações da TIJUPÁ e das principais notícias e articulações dos campos da Agroecologia, Economia Solidária, Reforma Agrária, Segurança Alimentar, entre outros temas. O Cá Prá Nós é uma versão on line do informativo impresso da TIJUPÁ que circulou no início dos anos 90.
Esperamos que gostem!
Equipe da TIJUPÁ

11 de dez de 2014

Carta da III Jornada de Agroecologia da Bahia




 

Pelos caminhos da América, no centro do continente, marcham punhados de gente, com a vitória da mão.  Nos  mandam sonhos, cantigas, em nome da liberdade, com o fuzil da verdade, combatem firme o dragão.Pelos caminhos da América há um índio tocando flauta, recusando a velha pauta, que o sistema lhe impôs. No violão um menino e um negro tocam tambores, Há sobre a mesa umas flores, pra festa que vem depois.                   
Zé Vicente  - “Pelos Caminhos da América”
 

 
Eles e Elas, mas de mil e duzentas, chegaram de todas as partes chocalhando seus maracás, tocando seus tambores e atabaques, percutindo seus berimbaus e caxixis, dedilhando seus violões e soprando suas flautas e gaitas, dedilhando seus acordeons. Chegaram com ginga, com cores, com alegria, trouxeram suas sementes sagradas e seus saberes ancestrais e nos seus alforjes, sonhos e esperanças de um novo mundo possível para TOD@S.  O local do “Grande encontro” foi no assentamento Terra Vista no município de Arataca no sul da Bahia na primeira semana de dezembro de 2014, e teve como tema: “Sementes, ciência e tecnologia agroecologica, para mudar a realidade das comunidades no campo e na cidade”.

Foram 05 dias (03 a 07/12) intensos de partilhas, reflexões, práticas, celebrações e uma mística que envolvia a tod@s. As oficinas temáticas e práticas, os mini-cursos, as mesas redondas, os momentos lúdicos, as conversas ao pé da fogueira e nos diversos “cantos” do assentamento. A feira troca-troca, nos banhos no Rio Aliança. Levaram-nos as seguintes constatações:

- A certeza que a caminhada realizada desde a I Jornada no final de 2012, que consolidou a Teia de Agroecologia dos Povos da Cabruca e da Mata Atlântica, deve continuar. E a TEIA deve continuar atuando de forma permanente enquanto uma rede que reconstrói a solidariedade entre as comunidades tradicionais, movimentos do campo e da cidade, e deve continuar dando um sentido mais amplo à agroecologia, tão distorcida pelo excesso acadêmico e teórico e tão pouca prática. Devemos desconstruir o tecnicismo perigoso, para defender uma agroecologia que une os povos e saberes para garantir saúde para nossos alimentos, solos e águas, saúde para as nossas relações sociais, para nossa identidade cultural, espiritualidade e ancestralidade. E como vimos muito fortemente nesta III Jornada, nos comprometemos na luta pela preservação e garantia de nossas sementes - “Patrimônio genético dos povos e da humanidade”.

- Assim como na II Jornada, percebemos e reafirmamos o compromisso de que não temos como consolidar uma saúde de boa qualidade e diferenciada e autonomia, que representa na verdade novas formas de vida, política e militância, sem garantir nossos territórios e a vida de nosso povo e nossas lideranças.  A agroecologia então,  é também uma forma de enfrentamento desse sistema e a Teia se propõe a ter ações solidárias diretas de defesa de nossos povos. Assim, nossa luta segue o caminho irrestrito de defesa da garantia da terra e por uma soberania dos povos que sabemos que só pode ser feita a partir de nosso suor.
- Exigimos a democratização da terra rural e urbana, com reforma agrária de verdade e já, a desintruzão e regularizações imediatas das terras indígenas e quilombolas e a reforma do solo urbano. Repudiamos veemente os ataques dos ruralistas contra os direitos dos povos do campo duramente conquistados, ataques estes com a conivência do Estado Brasileiro. Dizemos NÂO as Propostas de Emendas Constitucionais-(PECs), Projetos de Leis-(PLs) e Portarias Ministeriais que atacam e tentam tirar direitos já conquistados. Todos esses instrumentos buscam inviabilizar e impedir o reconhecimento e a demarcação das terras dos povos tradicionais, reabrir e rever procedimentos de demarcação de terras indígenas já finalizados; e facilitar a invasão, exploração e mercantilização dos territórios sagrados dos povos das florestas e suas riquezas. Tudo isto contrários aos princípios que vimos nesta III Jornada. Portanto continuaremos numa lutaconstante contra todos estes instrumentos jurídicos e legislativos que tentam deslegitimar as lutas e retirar os direitos constitucionais destas populações.
- Recachamos as propostas do  REDD+ e os ‘serviços ambientais’, no contexto da ‘economia verde’,  e contrários aos princípios agroecológicos, e deve continuar sendo uma parte central da nossa luta contra o capitalismo e as indústrias extrativas. Reafirmamos o compromisso de nos organizarmos pela defesa dos nossos territórios,  pela defesa das populações que vivem, dependem e são parte das florestas, pela defesa da autonomia sobre o controle de seus territórios, pela defesa da Mãe Terra. Basta de projetos extrativos, Não aos serviços ambientais, Lutar contra REDD+ também é combater o capitalismo! Não à criminalização dos povos que defendem seus territórios!  Queremos um basta imediato no processo de criminalização das lutas e das lideranças; Reafirmamos que “Lutar não é crime”.
- Exigimos que os governos municipais, estaduais e o governo federal cumpram com suas obrigações constitucionais e garantam os nossos direitos.  Que possamos ter políticas públicas de verdade que atendam as nossas necessidades e respeitem as nossas especificidades. Isto não é um favor é um direito.
- Invocamos a proteção dos nossos encantados, o seres de luz para continuarmos lutando contra os projetos de morte, que em nome de um tal de “progresso”, ou conhecidos como agronegócio e hidro negócios  atacam e agridem nossas comunidades, desrespeitam nossas identidades culturais, ferem a Mãe natureza e automaticamente ferem seus filhos. Lutaremos sempre por uma educação descolonial e libertadora que nos leve a concretizarmos o nosso Bem Viver.
- Percebemos a necessidade e nos comprometemos em aperfeiçoar a pratica da agroecologia nos nossos territórios, articulando os saberes ancestrais com os novos conhecimentos científicos, usado as novas tecnologias para o empoderamento popular, o manejo e uso da agroecologia e biodiversidade em SAF’s, inserção de SAF em ações de desenvolvimento centradas na agricultura familiar e nas diversas produções dos povos e comunidades tradicionais, planejamento da propriedade rural, permacultura, cacau orgânico e de qualidade, Ampliação dos nossos “bancos de sementes e viveiros de mudas”, caminhos sustentáveis e viáveis para todos, formação cultural para o fortalecimento de identidade, saberes ancestrais, soberania alimentar e saúde familiar entre muitos outros temas trabalhados nas diversas oficinas e reflexões coletivas.
- Nos comprometemos em continuar a nossa jornada unidos, partilhando os nossos “saberes”, construindo coletivamente nossos “sonhos”, protegendo as nossas sementes, organizando em mutirão as nossas lutas, exigindo com responsabilidade e de forma propositiva os nossos direitos, transformando os nossos espaços em territórios sagrados semeando “sementes de esperança” para colhermos “frutos de vida e plenitude”, retirando e impedindo o uso de “venenos e agrotóxicos” não só da terra, mas de nossa convivência para podermos saborear num futuro bem próximo um “chocolate amargo-doce”, resultado de uma corrente de diferentes elos unidos e entrelaçados por um único ideal: VIDA PLENA PARA TODAS AS CRIATURAS.

Como nos diz o eterno poeta Gozaguinha, na sua canção - Semente do amanhã:  Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs/ Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar! /Fé na vida Fé no homem, fé no que virá! / nós podemos tudo, Nós podemos mais.VAMOS LÁ FAZER O QUE SERÁ.

É preciso resistir para EXISTIR.

Assentamento Terra Vista, 07 de dezembro de 2014.

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