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Equipe da TIJUPÁ

23 de jun de 2017

Construindo educação popular e economia solidária no Baixo Munim: juntando mãos com mãos.

Rubenice Costa Rodrigues¹
Francisca Regilma de Santana Santos²


INTRODUÇÃO

O Brasil vive atualmente momento conjuntural que para muitos economistas, especialistas tem apontado para retrocessos, sobretudo para a classe trabalhadora. Autos índices de desemprego, baixos salários e fragilização das relações de trabalhistas, estão entre os principais gargalos para o desenvolvimento socioeconômico do pais o que favorece o aumento da pobreza e a busca na informalidade como forma de gerar renda e sobreviver na logica da economia capitalista. No Maranhão esta realidade não se faz diferente, ainda que os índices apontem para melhoria da qualidade de vida das populações em cidades de IDH abaixo da média, o Estado ainda está longe de se tornar território transformado, e não se pode esquecer os fatores históricos deste estado ao longo dos anos, que foi governado historicamente por uma oligarquia aos moldes do coronelismo. Em meio a uma conjuntura de retrocessos para a classe trabalhadora, percebe-se uma fragilização ainda maior das relações de trabalho e emprego. 

Ao longo da história do Brasil e no Maranhão, as classes mais oprimidas tem histórico de lutas, resistências e ações de superação. É na contra mão da conjuntura que sujeitos sociais (mulheres e homens) organizados e articulados constroem alternativas e se reconstroem como sujeitos ativos, a exemplo disso estão os grupos que acreditam em outra forma de economia possível e que a educação popular a partir de métodos participativos, refletidos, planejados tem um papel fundamental de transformar dadas realidades e formar sujeitos críticos e conscientes.

Ações como o projeto Econômico solidário e desenvolvimento local: fortalecendo a sustentabilidade das organizações produtos e solidárias da região Baixo Munim, vem de encontro com as perspectivas de educação popular no sentido de transformar grupos, comunidades e realidades sociais na região Munim no Estado do Maranhão. Este artigo visa discorrer brevemente sobre econômica solidária e educação popular, os processos e metodologias participativas desenvolvidas e praticadas ao longo da execução deste projeto. Não cabe aqui descrever um histórico detalhado da educação popular e economia solidária no Brasil, mas fazer uma referencia à educação popular como práticas educativas emancipatórias.


JUSTIFICATIVA

O paradigma da educação popular, inspirado originalmente no trabalho de Paulo Freire nos anos 60, encontrava na conscientização sua categoria fundamental. A prática e a reflexão sobre a prática levaram a incorporar outra categoria não menos importante: a da organização. Pois além de conscientizar é preciso organizar as massas para transformar uma dada realidade. Neste sentido ONG´s, grupos, organizações da sociedade civil, fóruns carregam em suas ações estes dois elementos estratégicos e de luta. O movimento de economia solidária também incorpora a educação popular como estratégia fundamental para o desenvolvimento local, pois acredita nas categorias de dialogicidade, amorosidade, construção do conhecimento que comungam com os princípios de autogestão, participação coletiva, cooperação e democracia.

Como forma de superação ao desemprego, muitos grupos sociais tem criado alternativas frente ao mercado capitalista, além do mais estes espaços possibilitam vivencias sociais emancipatórias. A vinculação da educação popular com a economia popular abre, também, novas e inéditas possibilidades para a prática da educação. O modelo teórico da educação popular, elaborado na reflexão sobre a prática da educação durante várias décadas, tornou-se, sem dúvida, uma das grandes contribuições da América Latina à teoria e à prática educativa em âmbito internacional. 

Os processos de educação popular no movimento de economia são uma construção permanente, (as oficinas, a produção do conhecimento a partir das práticas de sistematização dos planos de vida, estudo de viabilidade econômica, diagnostico dos grupos Novo Olhar do município de Bacabeira e AAAPJ do município de Presidente Juscelino), estas práticas de gestão em economia solidária e educação popular também constituem-se em mecanismos de democratização, em que refletem os valores de solidariedade e de reciprocidade e novas formas alternativas de trabalho, produção e de consumo. 


BREVE RESGATE EDUCAÇÃO POPULAR E ECONOMIA SOLIDÁRIA 

A pedagógica de autogestão tem como base a educação popular e se propõe uma prática educativa que parte da socialização de experiência de vida das pessoas e dos grupos. Um dos patronos do pensamento da educação popular no Brasil é Paulo Freira, que tem uma vasta bibliografia acerca da temática e, sobretudo foi e é um educador sensível às causas sociais que defendia a reflexão crítica da realidade e uma educação liberadora, capaz de despertar nos sujeitos a capacidade de agir coletiva e criticamente frente a realidade, na maioria excludente. Que dentre inúmeras contribuições uma que se relaciona ao tema aqui tratado segue sendo sua referencia in referências metodológicas de formação e assessoria técnica em economia solidária, publicado pelo Caritas Brasileira (2016), o artigo acerca da educação popular em economia solidária e a educação popular, “Ninguém ensina nada a ninguém, aprendemos juntos. Isso se aplica inteiramente à Economia solidária, enquanto ato pedagógico”. A relação entre educação popular e o movimento da economia solidária nos faz resgatar um pequeno poema de Carlos Drummond de Andrade, intitulado Mãos dadas, que se segue,

“Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros (...) o presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes, a vida presente”.

Este tempo presente e este fazer de mãos dadas representa muito a experiência dos empreendimentos econômico solidários e este fazer pedagógico, que comungam com as concepções de Paul Singer uma das maiores referencias sobre economia solidária no Brasil. Singer (2001, p.114) descreve o movimento ou a economia solidária, como sendo esta mais que uma mera resposta ao modelo capitalista de produção, mas permite a estes sujeitos ter a liberdade de escolher o trabalho que lhe dá satisfação e possibilita plena participação nas decisões que lhe afetam. O fato da possibilidade de escolher da novo sentido, ou resgata o sentido do trabalho como resultado humano, e não alienado. O trabalhador faz o movimento de resgatar o sentido do trabalho como parte fundamental para a emancipação humana, e constrói novas relações comerciais, mercadológicas. Outro grande nome que discute economia solidária é Gaiger, para ele os empreendimentos econômicos solidários possuem idealmente algumas características como: autogestão, participação, democracia, igualitarismo, desenvolvimento humano e a responsabilidade social. E para este, nada esta acabado, características estas reafirmadas nos processos de educação popular. Sobre o termo economia solidária no Brasil, recorremos a Santos (2011, p.4), 

“Ressurge no final do século XX como resposta dos trabalhadores e trabalhadoras às novas formas de exclusão e exploração que apoiava iniciativas associativas comunitárias...o crescimento no contexto brasileiro se deve a fatores variadas, dentre os quais vale destacar a resistência de trabalhadores e trabalhadores à crescente exclusão, desemprego urbano e desocupação rural, resultante da expansão agressiva e dos efeitos negativos da globalização”.

No livro Referencias Metodológicas de formação e assessoria técnica em economia solidária publicado pela Caritas Brasileira em 2016, p. 47 os autores resgatam o conceito de educação popular como, 

“Um conjunto de atores, práticas e discursos que se identificam em torno de ideias centrais: seu posicionamento crítico frente ao sistema social imperante, sua orientação ética e política emancipadora”

A emancipação humana não é um processo rápido, fácil e individualizado, requer tempo, reflexão da prática e do cotidiano e ação permanente.

OS PROCESSOS E A VIVENCIA DO PROJETO ECONOMIA SOLIDÁRIA E DESENVOLVIMENTO LOCAL: FORTALECENDO A SUSTENTABILIDADE DAS ORGANIZAÇÕES PRODUTIVAS E SOLIDÁRIAS DA REGIÃO BAIXO MUNIM E AS TECNOLOGIAS SOCIAIS EM PROL DA COLETIVIDADE.

Durante a execução do projeto foi possível vivenciar as prática deste fazer pedagógico e solidário nos empreendimentos envolvidos. O desafio de consolidar novas relações de trabalho – a valorização da coletividade e o respeito a individualidade dos sujeitos. Neste sentido resgatamos uma das diretrizes politico-pedagogica da educação em economia solidária o respeito e a valorização dos saberes locais, e a socialização de conhecimentos e saberes.Foram nove meses de execução desta parceria, que tiveram como resultados alguns produtos e muitos saberes, do Grupo Novo Olhar, que é um grupo produtivo de caráter econômico-solidário, que produz artesanato no município de Bacabeira/MA. E da AAAPJ, organização de caráter econômico-solidário com atuação no município de Presidente Juscelino/MA. 

O projeto tem como objetivos específicos e resultados esperados para os dois grupos partícipes do processo de incubação: aumentar a capacidade dos membros dos grupos/organizações para sua participação direta e aprimoramento da dinâmica de gestão nas esferas da produção e comercialização para incidirem nos espaços local e territorial de forma autônoma; construir, de forma participativa, métodos de análise de viabilidade econômica; diversificação de estratégias de inserção dos produtos nos mercados locais e territorial, com base na comercialização solidária; qualificar na identidade visual dos produtos; atualizar planejamentos elaborados em processos anteriores, consolidando o Plano de Vida de cada organização ao término do projeto; ampliar capacidades relacionadas à dinâmica interna de PMA dos empreendimentos solidários; fomentar uma maior participação nas ações em rede, no campo da economia solidária, visando articula-se uma maior incidência nas politicas públicas, tendo experiências de economia solidaria como referência para o combate à pobreza rural. O resultado do que se apresenta é cumulativo sendo parte de um processo mais amplo de diálogos e interações entre a organização e entidades parceiras no campo da Economia Solidária e Educação Popular, e que, considerando a dinâmica de funcionamento de empreendimentos econômico-solidários não tem a pretensão ser um resultado finalístico e nem absolutizar as informações e ações planejadas aqui sistematizadas.

O processo de construção do projeto se deu de forma participativa onde, todos/as os/as participantes dos empreendimentos contribuíram a partir de um processo de reflexão sobre sua própria realidade. Durante a construção se estabeleceu uma relação de diálogo ampla com os membros dos empreendimentos que facilitaram a interação e participação de todos e todas nas rodas de conversas que atualizaram as dificuldades, potencialidades e ameaças atuais que os Grupos e seus/suas associados/as vivenciam.


CONCLUSÃO

A grandeza de um ser humano se define por sua imaginação, segundo Florestan Fernandes sem uma educação de qualidade a imaginação é pobre e incapaz de dar ao homem (ser social) condições para refletir e intervir em uma dada realidade. De fato, a educação tem o papel libertador, emancipatório deste que seja ela baseada em métodos que permitam uma reflexão mais crítica, partilhada e refletida cotidianamente. Nos empreendimentos de economia solidária este processo de pratica, reflexão e prática é constante, sobreviver dentro da lógica capitalista, respeitando, exercitando novos valores e nova relação trabalhador x trabalho é uma luta árdua.


REFERENCIAS 

AMORIM, Risoneide. At all. Referencias Metodológicas de Formação e Assessoria Técnica em economia solidária. Brasília, 2016.

GAIGER, Luís Inácio. Significados e tendências da economia solidária – Curso de Formação de Formadores para Gestão em desenvolvimento sustentável e solidário. Modulo A, aula 5. Pg.7. Escola Sindical, São Paulo, 2005.

SANTOS, Francisca R. S. Cooperativa para a Dignidade do Maranhão: um estudo de caso. Revista Tecer, vol 4, nº 07, novembro 2011. 

SINGER, Paul. Introdução a Economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002. 



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1 - Estudante de Serviço Social e Coordenadora do Projeto Economia solidária e desenvolvimento local: fortalecendo a sustentabilidade de organizações produtivas solidárias da Região do Baixo Munim 
2 - Especialista em Economia política e Desenvolvimento agrário, graduada em administração, militante social e educadora popular.

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